Dois irmãos, Vinicius e Giulia Cegagno, de 13 e 15 anos, respectivamente, mais o colega Bruno Batista da Silva, 15, misturam-se hoje, discretamente, entre os músicos da Orquestra Sinfônica de Rio Claro. Muito jovens, transitando naquele breve intervalo de tempo em que se ameaça deixar para trás a infância e se reivindica passagem para a vida adulta, eles, mesmo discretos, não destoam do talento dos demais instrumentistas da sinfônica, mais experientes. Que o diga o professor e regente Raul Sartori, que identificou o potencial do trio ainda nas aulas da Escola Livre de Música Fábio Marasca, uma atividade disponibilizada gratuitamente para a comunidade. “Eles vão longe, têm vontade, disciplina e sensibilidade”, atesta.
Vinicius e Giulia convivem com a música desde bem tenra idade. No caso de Vinicius, o avô materno, José, que ele só conheceu por relatos da família e, melhor ainda, por vídeos que registraram a perícia do patriarca no trato com o bandolim, foi quem deu um impulso extraordinário em suas incursões pelas partituras. O avô inspirador faleceu poucos meses antes de Vinicius nascer. “Com oito anos, comecei a tocar violão; há três anos entrei na escola de música da prefeitura e, recentemente, fui chamado para participar da Orquestra Sinfônica de Rio Claro”, revela o menino enquanto apruma o violino para o ensaio.
Entre os compositores clássicos, Vinicius destaca que seu preferido é Ludwig van Beethoven (1770-1827) e não hesita em apontar a 9ª Sinfonia em Ré Menor como o que de mais majestoso o gênio alemão produziu. Giulia faz outras escolhas, mas também vai buscar na Alemanha seus inspiradores: Johann Sebastian Bach (1685-1750) e Johannes Brahms (1833-1897). “Ambos têm muito estilo, são muito bons”, avalia a violoncelista.
Bruno conheceu o contrabaixo acústico há três anos quando, alertado pela mãe, soube da Escola Livre de Música Fábio Marasca, procurou a instituição e fez um teste de aptidão. Ele é monossilábico ao informar o resultado do teste: “Passei”, conta. Antes dessa iniciação musical ele explica que teve interesse por violão e teclados, mas arremata que nunca comprou ou tocou algum desses instrumentos.
O primeiro ano na escolinha da prefeitura foi um desafio para Bruno: “Difícil, complicado e só superei no segundo ano, quando fui me familiarizando com o contrabaixo, passei a gostar e conclui que era o que eu queria tocar”, relata. Apreciador de Franz Peter Schubert, compositor austríaco que morreu jovem, aos 32 anos, em 1828, o garoto já trouxe para a escola de música dois amigos. “E pretendo arrastar outros”, promete.
Compenetrados durante o ensaio realizado no núcleo da Escola, na capela de Santa Clara (Jardim Floridiana), os irmãos Vinicius, Giulia e o colega Bruno não desviam os olhos das partituras. Vê-los e ouvi-los, disciplinados, extrair sons que se fundem a outros sons, evocando imagens etéreas, revolvendo sentimentos, convocando emoções tão raramente expostas à luz é reconhecer na música um elo com o sublime.
Os dois garotos e a menina Giulia se dão conta do universo que a vida lhes abre quando vibram as cordas de seus instrumentos. A gratuidade da escola, o fato de a instituição disponibilizar os instrumentos e não requerer experiência musical para aceitar as matrículas são elementos valorizados pelos três jovens. “Não dá pra imaginar, seria impossível se tivéssemos de arcar com o custo de aulas particulares”, resume Giulia sob a aprovação do irmão e do colega contrabaixista.
Bruno, que cursa o primeiro ano do ensino médio, estuda também informática, já procurando segurança financeira para não se afastar da música que tanto o seduz e faz vicejar seu formidável talento artístico. Giulia e o mano Vinicius fazem planos de seguir carreira musical, mas fincam o pé na escola para ampliar o conhecimento. “Talvez me dedique a uma consultoria de vendas no futuro, mas sem abrir mão da música”, confidencia o garoto. Ela, Giulia, não deixa por menos: “Vou seguir carreira, quero lecionar música e pretendo me aprimorar no exterior, quem sabe com uma bolsa de estudos”, idealiza.
Inscrições abertas
Mantida com apoio da prefeitura de Rio Claro, a Escola Livre de Música Fábio Marasca, fundada em 1982, é integrada à orquestra Sinfônica de Rio Claro, fundada no ano seguinte, 1983. A instituição está com inscrições abertas para aulas de violino, viola, violoncelo e contrabaixo. A formação é gratuita e os interessados devem ter 12 anos ou mais. As aulas são realizadas às terças-feiras e sextas-feiras, das 8h30 às 10h30, na capela de Santa Clara, na Avenida 2, Jardim Floridiana, em frente ao Sesi. Informações e inscrições na secretaria da igreja matriz Imaculado Coração de Maria, na Rua M7 nº 624, Jardim Hipódromo – telefone 3527-3112. O aluno não precisa ter experiência e nem os instrumentos.