Manhã quente de primavera, mas o calor não atrapalha em nada os usuários do Centro Municipal de Atendimento ao Cego – CMAC que, espalhados pelas salas de atividades confeccionam, felizes, os produtos de Natal que colocarão à venda. Alguns conversam sobre seus familiares, outros assoviam uma melodia animada. Vivendo no escuro há anos, eles aprendem a enxergar com as mãos e aprofundar os demais sentidos, dando origem a trabalhos valiosos em macramê, mosaicos e pinturas.
O clima é descontraído. Um brincando com o outro, compartilham as histórias conhecidas de outras épocas. As mãos frenéticas não param um minuto sequer e o trabalho nunca é interrompido. Os deficientes visuais são atualizados, digitam ao celular, acessam o computador, assistem à televisão e até debatem sobre a contratação do novo técnico para a seleção brasileira.
A habilidade é tamanha que o movimento é rápido. Tão rápido que nossos olhos não conseguem entender direito como estão sendo feitas as sacolas e outros adornos. Assim, é fácil sentir-se mais deficiente do que eles.
Maria Helena Pereira (62), usuária há 16 anos, conta que se sente gratificada pelo carinho que recebe quando expõe seus produtos: “quando tem feira eu me sinto reconhecida, gratificada. As pessoas ficam admiradas e fazem questão de nos elogiar, prestigiar nosso trabalho”. Ela afirma fazer questão de comprar alguns de seus produtos para usá-los no dia a dia.
“Além do aprendizado, estar aqui faz bem à minha mente”, disse Pedro de Oliveira (69), que freqüenta o CMAC há 26 anos. “Sempre levo um adorno que fiz para meus familiares, para enfeitar a casa e alegrar o ambiente”, completou.
“Procuramos mostrar a eles que é possível viver com suas deficiências”, disse a assistente social Mariane Aparecida Messias. “Comprometer-se com uma atividade diária contribui para a socialização, e as experiências que vivem aqui repercutem no comportamento deles em casa”, completou. Ela explicou ainda que o dinheiro arrecadado com o artesanato é investido no grupo, seja para comprar o material usado para a confecção dos produtos, ou para passeios.
Segundo Mariane, o preconceito com relação às pessoas cegas ainda existe e faz com que alguns que não têm deficiência alguma menosprezem a capacidade delas, o que pode ocasionar problemas psicológicos. “Sabemos que no começo existe a negação do próprio cego em relação a si. Ele se sente inutilizado sem a visão, não consegue compreender que é possível aprender a viver novamente, desenvolver novas habilidades”, conta a assistente social. “É comum perguntarem se foi mesmo um cego que fez um quadro ou um vaso”, completou.
Dados divulgados pela Organização Municipal de Saúde apontam que 1% da população brasileira é composta por deficientes visuais, o que representa cerca de 1,7 milhões de pessoas. No processo de inclusão social, o cego ainda encontra inúmeros obstáculos, como o acesso à educação, informação, cultura e ao mercado de trabalho.
“Devido a esses obstáculos, o papel da Secretaria Municipal de Ação Social, por intermédio do CMAC, é justamente o de guiá-los por um processo completo de reabilitação, seja este de caráter social, emocional (auto-estima) e profissional, promovendo, de fato, a inclusão social”, declara a secretária municipal de Ação Social Luci Helena Wendel Ferreira.
Como e onde adquirir os produtos:
De segunda a sexta-feira, das 8 às 16 horas, no CMAC – Avenida 3, nº 55, entre ruas 1 e 2 – Centro
Produtos oferecidos: Tapetes, guirlandas, suportes de vasos e bolsas em macramê; vasos, caixinhas diversas e pratos de parede em mosaico; guardanapos e telas pintados a mão, além de cartões de Natal.
